Rio Branco hoje amanheceu com um silêncio que não é de paz, é de espanto. No Instituto São José, o barulho que ouvimos não foi apenas o disparo seco de uma arma; foi o estilhaçar da nossa alma coletiva. Em uma terra onde o "bom dia" na esquina ainda tem rosto e história, a tragédia não aceita o anonimato frio das estatísticas. Aqui, a dor de um é o aperto no peito de todos nós. A premissa é amarga e urgente: aquela bala, ao silenciar Raquel e Alzenir, não atingiu apenas corpos. Ela feriu, de forma profunda e definitiva, uma comunidade inteira.
Como estudante do Instituto Federal do Acre – o IFAC, eu sinto esse receio latejar na própria pele. O anúncio da suspensão das aulas traz um suspiro de alívio imediato, mas carrega o peso de um abismo: o dia de amanhã. O que será do retorno? Cruzar o portão das escolas não será mais um ato mecânico; será um exercício de coragem bruta não apenas para a comunidade estudantil – mas também para os pais. Olharemos para os corredores buscando vestígios de uma normalidade que morreu. O professor agora encara o quadro buscando respostas que nenhum livro de pedagogia escreveu, enquanto alunos tentam retomar o fio de um futuro que, por um instante, pareceu desmoronar sob seus pés.
O meu olhar não para no pátio da faculdade. Ele viaja para a sala de aula da minha filha, ainda no segundo ano do Ensino Fundamental. E é aqui, no papel de pai, que a ferida se torna visceral. Como será deixá-la ali, pequena e alheia ao peso do mundo, enquanto a incerteza me devora? A cada passo que dou para longe do portão da escola dela, sinto o fio invisível da segurança se esticar até quase romper. Como explicar para uma criança que o lugar de aprender agora exige vigilância? Como acalmar o coração de um pai ou de uma mãe que sabem que, por mais que queiram, não podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo para protegê-la?
Essa angústia não é só minha; ela é o travesseiro de cada pai e mãe acreanos, nesta e em todas as noites a partir de agora. Quando o chão da escola — nosso último reduto de esperança — é manchado em uma capital que ainda se sente aldeia, a bala atravessa a nossa inocência tardia. Ela nos arranca a ilusão de que o mal acontece apenas na tela da TV, longe do nosso Rio Acre. O perigo agora é nos perdermos em respostas de ferro, em muros cada vez mais altos e detectores de metal que apenas camuflam o pânico. O desdobramento mais triste seria deixarmos que o medo mate nossa maior riqueza: a confiança mútua.
Rio Branco e o Acre não serão mais os mesmos. Seremos, a partir de hoje, uma cicatriz que caminha. Mas que essa marca não nos torne estranhos uns aos outros. A segurança real não se compra em lojas; ela se cultiva no olhar atento e no cuidado com quem senta ao nosso lado na sala de aula ou no banco do pátio.
Em meio a tanta dor, é importante termos a clareza de que a reconstrução não virá do isolamento, mas da cura dessa rede de afetos que foi rasgada. Somos um nó; que o sofrimento não nos transforme em ilhas, mas em um porto seguro para o luto e para a esperança de quem espera o filho voltar para casa no fim do dia. Pode ser cedo para sabermos como curar tamanha ferida, mas nunca será cedo demais para segurarmos a mão um do outro e decidirmos que, aconteça o que acontecer, ninguém em Rio Branco ou no Acre haverá de carregar esse luto sozinho. E é hora de segurarmos as mãos, porque o futuro da nossa cidade e do nosso estado depende da nossa capacidade de ainda conseguir confiar no próximo, apesar de toda essa dor que nos atravessa agora.
*Tácio Júnior é jornalista, pela Universidade Federal do Acre, e acadêmico de sistemas para internet, no Instituto Federal do Acre
