“Alagados, Trenchtown, Favela da Maré…”. O verso eternizado pela banda Paralamas do Sucesso na canção Alagados não deveria servir como espelho para a realidade de nenhuma cidade brasileira em pleno século XXI. Mas serve e, infelizmente, com precisão incômoda, para descrever o cotidiano de muitas famílias em Rio Branco, especialmente na Baixada da Sobral.
Aqui, não se trata de metáfora artística. É concreto, é lama, é água invadindo casas, é rotina interrompida. São famílias que convivem com a vulnerabilidade não como exceção, mas como regra.
O mais preocupante, porém, não é apenas a existência do problema. Cidades amazônicas enfrentam desafios históricos relacionados à ocupação desordenada e à geografia. O que realmente provoca reflexão é o padrão previsível de comportamento político: a tragédia chama atenção, a atenção gera discursos e os discursos desaparecem quando as águas baixam.
A Baixada da Sobral, como tantas outras áreas periféricas da Capital, torna-se pauta recorrente em momentos de crise. É quando surgem visitas, promessas, vídeos, debates acalorados e até confrontos públicos entre autoridades. Mas a pergunta que permanece e precisa incomodar é: onde está essa mesma intensidade quando não há câmeras ou manchetes?
A política, em sua essência, deveria ser permanência, não presença episódica. Problemas estruturais exigem planejamento contínuo, investimento consistente e responsabilidade compartilhada. Não se resolve alagamento com discurso inflamado, nem com disputas de vaidade entre representantes. Resolve-se com drenagem eficiente, urbanização planejada, políticas habitacionais e, sobretudo, compromisso de longo prazo.
Há ainda um ponto que não pode ser ignorado e que muitas vezes é evitado por ser desconfortável: a responsabilidade também é coletiva. A realidade urbana não é construída apenas pelo poder público, mas também pelas escolhas diárias da população. O descarte irregular de lixo, a ocupação de áreas de risco e a falta de cuidado com o próprio entorno contribuem para agravar um cenário já delicado.
Isso não significa transferir culpa. Significa reconhecer que transformação social exige parceria. Governo sem comunidade é ineficaz; comunidade sem governo é desassistida.
O que se espera e se cobra é maturidade de ambos os lados. Que a classe política abandone o ciclo oportunista de aparecer apenas em tempos de crise ou eleição. E que a população fortaleça a consciência de pertencimento, entendendo que o espaço público começa na porta de casa.
Rio Branco não pode ser apenas lembrada como terra dos alagados quando convém ao debate político. Precisa ser reconhecida como cidade que enfrenta seus desafios com seriedade, continuidade e responsabilidade.
Queira Deus e queira também a sociedade que a Baixada da Sobral deixe de ser símbolo de abandono periódico e passe a ser exemplo de transformação permanente. Porque dignidade não pode ser sazonal.
