Aqui, em Xapuri, o silêncio tem o peso da paz - essa coisa rara que a gente só nota quando ela se demora nos detalhes. Sentado à beira da praça, assisto ao espetáculo discreto da vida: o Rio Xapuri se entrega ao Rio Acre em um abraço de águas que não disputam lugar no mundo. Elas se somam, se dissolvem, tornam-se uma só sem pedir licença nem passaporte. É um encontro de paciência, de quem sabe que o destino é o mar e que a pressa, no fundo, é um erro de cálculo do tempo. O barulho que ouço é o som de um motor de rabeta cansado, o de um pássaro que risca o céu como se escrevesse um verso, ou o som quase mudo da correnteza lambendo a margem.
Mas minha mente não consegue ficar aqui, estática neste banco. Ela insiste em bater asas, atravessa oceanos e se enfia nos vãos das escadarias de Beirute e Teerã.
Enquanto o rio flui, imagino o som que não ouço daqui, mas que sinto na boca do estômago: o som do bombardeio. Não deve ser apenas barulho; deve ser um trovão que não acaba, um estrondo ensurdecedor que sacode as vigas da casa e as vigas da alma. Imagino alguém - um pai, uma criança, um idoso - tentando subir as escadas de um prédio qualquer, degraus que levam ao incerto. Cada passo é uma corrida contra o invisível, onde o céu é o teto de Deus, é um teto de metal.
É uma ironia terrível. Aqui, as águas se abraçam para seguir vivas. Lá, o concreto se abraça com a pólvora para desabar. Eu tenho o privilégio de ver dois rios virando um só; eles, no Líbano ou no Irã, têm o desespero de ver o mundo se partir em mil pedaços, como se o cristal da existência tivesse caído no chão. A paz que me sobra aqui é a que falta lá.
Fecho os olhos por um segundo. O barulho da praça volta a ser apenas o de Xapuri. Mas, ao abri-los, o barro do rio parece carregar um pouco do peso desse mundo que, teimoso, insiste em não saber se abraçar. Os homens, coitados, complicam o que as águas resolvem com um simples toque.
Fico aqui, imobilizado pelo privilégio do silêncio, desejando que um pouco dessa fluidez acreana possa viajar pelo ar. Que o estrondo das bombas desse lugar ao som de passos calmos em escadarias seguras. Que o abraço dessas águas, tão natural e inevitável, servisse de exemplo mudo para quem só sabe erguer muros e disparar trovões de ferro.
Meu desejo, enquanto vejo o Xapuri se perder no Acre, é que o mundo aprenda a lição dos rios: que saiba encontrar o outro sem destruir, que saiba seguir em frente sem deixar ninguém para trás. Porque a paz não é o silêncio do medo, mas a harmonia de quem descobriu que a vida é curta demais para não se misturar.
Emylson Farias
Delegado de Polícia
