Nos últimos anos, especialmente em Rio Branco, tem se observado um fenômeno curioso — e preocupante — no panorama da comunicação local: o aumento expressivo de sites de notícias cobrindo os mais variados temas. À primeira vista, essa multiplicação pareceria sinônimo de pluralidade e democratização da informação. No entanto, uma análise mais atenta revela uma realidade bem diferente, que coloca em xeque a qualidade jornalística e a própria função social desses portais.
Pluralidade ou cortina de fumaça?
A proliferação desses “sites de notícia” tem uma característica em comum: muitos não passam de estruturas frágeis, criadas com um único objetivo prático — captar recursos públicos por meio de verbas oficiais de mídia. Trata-se de páginas que, embora usem termos como “portal de jornalismo”, “informação em tempo real” ou “notícias do Acre”, pouco ou nada produzem de conteúdo original.
Ao invés de pautar matérias, investigar fatos ou checar informações, esses sites “replicam” notícias de grandes veículos — muitas vezes sem autorização ou atribuição de crédito — por meio de sistemas automatizados. São os chamados “robôs de conteúdo”: algoritmos que capturam textos alheios e os republicam em massa, numa operação que lembra mais agregadores automáticos do que redações.
Verbas públicas e o ciclo da reprodução automática
O problema ganha contornos mais graves quando se considera a fonte de financiamento desses portais. Boa parte recebeu — ou ainda recebe — repasses de publicidade oficial. Prefeituras, secretarias estaduais e até órgãos vinculado ao Governo Federal passaram a contratar espaço nesses sites, muitas vezes sem critérios claros de audiência, relevância ou transparência editorial. Para um observador atento, a lógica é simples: com verbas em mãos, a operação se limita a manter robôs que “sugam” informações de fontes externas, deixando de lado o trabalho jornalístico de elaboração de notícias.
Esse modelo levanta duas questões essenciais:
1. Há efetiva produção jornalística?
Muitos desses sites não contam com equipes de repórteres, editores ou fontes próprias. Não há apuração, entrevistas ou responsabilidade editorial — elementos basilares do jornalismo sério. A informação reciclada, sem análise ou contextualização, perde valor e compromete o direito do público a entender o que ocorre em sua comunidade.
2. A utilização de recursos públicos está sendo feita com responsabilidade?
Ao destinar publicidade oficial a portais que não agregam conteúdo original, órgãos públicos deixam de apoiar veículos tradicionais que sustentam equipes, pagam impostos locais e contribuem para a formação de opinião responsável. Esse tipo de financiamento pode, inadvertidamente, enfraquecer um ecossistema de mídia já fragilizado.
O impacto na credibilidade da imprensa local
A circulação de sites com conteúdo automatizado também prejudica a percepção pública sobre o jornalismo. Quando leitores acessam portais que apenas “copiam e colam” notícias, e confundem esses sites com veículos sérios, a confiança no jornalismo como fonte de informação acurada sofre erosão.
No longo prazo, essa dinâmica pode diminuir o valor percebido do trabalho profissional: se qualquer página sem equipe ou princípios pode ser chamada de “site de notícias”, qual é o diferencial de quem faz apuração e investe em ética editorial? Mais do que proliferar páginas, é preciso fortalecer o valor social da notícia — com profissionais e compromisso com a verdade.
