O Acre sempre foi visto como o fim do mapa. Mas, na verdade, pode ser o começo de uma nova rota para o desenvolvimento da Amazônia. A posição geográfica que antes representava isolamento agora pode se tornar a maior vantagem estratégica do estado. Com a integração física e produtiva em curso, o Acre tem condições de ser o elo entre dois oceanos — o Atlântico e o Pacífico.
A futura Ferrovia Transoceânica reforça um movimento que já começou. A Rodovia Interoceânica, ligando o Acre ao Peru, já trouxe mudanças concretas, como a expansão da Dom Porquito, agroindústria de processamento de carne suína que encontrou no acesso terrestre ao Pacífico uma oportunidade de crescimento e exportação. O Acre é, por natureza, um ponto de convergência logística: a BR-364 conecta o estado ao Sudeste e ao Centro-Oeste do país, enquanto a BR-317 o liga diretamente ao Peru. Entre esses dois eixos, forma-se um corredor de desenvolvimento capaz de unir a produção local às grandes rotas comerciais internacionais.
Mas a integração produtiva da Amazônia não começa nas ferrovias nem nas rodovias — começa nos ramais. É nos ramais que pulsa a economia da agricultura familiar. Ali circulam a macaxeira, a farinha, o café, a castanha, o milho, o açaí, as hortaliças e o esforço diário das famílias agricultoras. O grande gargalo logístico do Acre está nesses acessos: sem ramais trafegáveis, não há escoamento eficiente, e o produtor continua distante dos mercados e das políticas públicas. Investir nos ramais é, portanto, investir na soberania produtiva do Acre. É tão estratégico quanto construir uma ferrovia ou uma rodovia, porque é ali, no barro e na beira do igarapé, que o desenvolvimento encontra o povo que produz.
A verdadeira integração precisa ter os papéis logísticos bem definidos. Os ramais devem garantir o acesso da produção às comunidades e aos eixos de escoamento; as rodovias estaduais precisam conectar essas áreas produtivas aos centros regionais e polos agroindustriais; e as rodovias federais e a ferrovia devem fazer a ligação com os grandes mercados nacionais e internacionais. Se uma dessas pernas não funcionar, o corpo não anda. É impossível falar em integração continental sem resolver a infraestrutura local. O desenvolvimento precisa ser construído de baixo para cima — da base para o topo — começando pelos ramais.
O pequeno produtor acreano, o agricultor familiar, não mora às margens da rodovia nem no início dos ramais. Ele vive no fim da linha, onde a infraestrutura não chega e a ausência é rotina. Falta assistência técnica, faltam escolas, saúde, segurança pública e mecanização. É nesses lugares invisíveis que o Estado precisa estar presente, levando política pública e oportunidade.
A integração só terá sentido se vier acompanhada da criação de polos agroindustriais cooperativos. O Acre pode ser referência nacional em modelos produtivos que unam eficiência e sustentabilidade, com cooperativas que beneficiem castanha, café, cacau, leite, carne, fruticultura e grãos. Esses polos não precisam de grandes complexos industriais: precisam de planejamento, crédito, assistência técnica e infraestrutura logística. Uma rede de pequenas e médias agroindústrias pode gerar valor agregado, emprego e renda em escala regional, articulando-se com o mercado e com os programas de compras públicas — como o PAA e o PNAE — que fortalecem a agricultura familiar e a economia local.
A Rodovia Interoceânica já prova que o caminho é possível. A ferrovia, quando chegar, apenas ampliará essa capacidade, consolidando uma rota contínua de integração econômica, cultural e comercial entre o Brasil e o Peru — e, por extensão, entre a América do Sul e a Ásia.
O Acre não é periferia — é plataforma de integração produtiva da Amazônia. O que falta é transformar essa posição geográfica privilegiada em projeto político e econômico. Isso exige planejamento territorial, investimentos em infraestrutura e políticas públicas articuladas entre União, estado e municípios. A Amazônia precisa deixar de ser tratada como espaço de compensações e passar a ser reconhecida como espaço de oportunidades. E o Acre, que já provou sua capacidade de resistir, inovar e produzir, pode liderar esse novo pacto amazônico de desenvolvimento — onde os trilhos, as estradas e os ramais sejam caminhos do futuro.