Ela segura um buquê de rosas de plástico como quem segura o próprio tempo. As flores não murcham, não exalam perfume, mas carregam um significado profundo para Raimunda de Paiva Oliveira: esperança. “Deus proverá”, repete, como quem faz da fé um escudo contra a dureza da vida.
Há nove anos, Raimunda ocupa o mesmo espaço, recolhendo o que o mundo descarta para tentar transformar em sustento.

Entre sacolas, restos e silêncios, construiu uma rotina marcada pelo esforço diário e pela resistência. Ao seu lado, o esposo divide o peso da jornada.
Às vezes, o filho também está ali, aprendendo cedo que sobreviver, para muitos, começa no que sobra.
O trabalho é contínuo, quase invisível para quem passa apressado. “Às vezes dá, às vezes não”, resume Raimunda, com a serenidade de quem aprendeu a não criar muitas expectativas.

O cansaço é constante, mas não a impede de voltar no dia seguinte. É de segunda a sábado, na labuta que não conhece descanso nem promessa de recompensa.
Com o Natal se aproximando, o brilho das vitrines contrasta com a realidade de quem luta para garantir o básico. Para Raimunda, a data não é sinônimo de ceia farta ou presentes. “Na luta”, responde, sem reclamar, reforçando a mesma frase que guia sua caminhada: “Mas Deus proverá”.

Na simplicidade de suas palavras, está o retrato de milhares de trabalhadores invisíveis que sustentam a cidade com as próprias mãos. Raimunda não pede muito. Talvez, como ela mesma disse, sonhe com uma rosa de verdade — não pelo valor, mas pelo símbolo. Uma flor que morre e renasce, trazendo consigo a esperança que insiste em florescer mesmo nos terrenos mais duros.
